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ÓCULOS

POSTADO EM 07 ABR 2018 por: Raquel Naveira ÓCULOS

 

 

 

 

Raquel Naveira

 

Quando entro em minha casa, prendo os cabelos e coloco óculos, assumo minha verdadeira identidade. É aí que posso circular livremente entre meus livros, buscar papéis nas estantes, observar com calma os ponteiros dos relógios.

Fui uma criança míope, angustiada, até que comecei a usar óculos e enxerguei com alegria e perfeição o que estava escrito no quadro-negro, tão confuso para mim. Os óculos representaram um grande alívio, uma libertação.

Mais tarde, lendo a novela “Manuelzão e Miguilim”, de Guimarães Rosa, uma narrativa profundamente lírica, que recria a vida captada pela perspectiva de uma criança, identifiquei-me com o momento mágico em que Migulim descobre um universo novo e lindo, depois que um senhor vindo de fora lhe emprestou os óculos. O menino nem podia acreditar! Tudo era diferente: as coisas, as árvores, as caras das pessoas. Via os grãozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas, as formiguinhas passeando no chão. Chegou a ter tontura. Olhou para todos com força. Olhou os matos escuros de cima do morro, a casa, a cerca de feijão-bravo, o céu, o curral, o quintal. Olhou o gado, o verde dos buritis. Agora ele sabia como era bonito o Mutum, lugar em que vivia.

Por ser míope, nunca me interessei por corridas, praia, carros, esportes ou pelo mundo exterior. Para mim o mundo sempre foi feito de sombras. Sentia-me bem lendo, fazendo tarefas, enfeitando meu caderno com cromos e canetas coloridas. Confortável era o meu interior. Belos os meus devaneios e sonhos.

É um fato: os míopes são afeitos à leitura, aos trabalhos manuais, aos bordados, aos pequenos detalhes e mecanismos. Os óculos são símbolos de saber, cultura, erudição, alma estudiosa, intelectual. Atrás das lentes, um olho olha o tempo e o outro, a eternidade.

Contam que a rainha Guinevere, esposa do lendário rei Artur, da Bretanha, era míope. Excelente artesã, tecia com primor estandartes com cruzes da cristandade. Naquela época nublada, retratada no livro As Brumas de Avalon, cheia de magos, bruxas, druidas, sacerdotes cristãos, a neblina separava o fim de uma era e o início de outra. Ela viveu um romance proibido com um dos cavaleiros da Távola Redonda, Lancelote. Seu amor por dois homens ao mesmo tempo desestruturou a unidade utópica do reino de Camelot. Ao final, tornou-se monja, quase cega, expiando, ardendo como uma tocha sagrada de fé e amor pulsante, acima das circunstâncias adversas das paixões. Isso nos faz acreditar que nossos defeitos e limitações estão no controle de Deus, pois Ele nos ama como nos criou, como somos.

A existência dos óculos remonta aos egípcios. O filósofo chinês Confúcio já os utilizava sobre o nariz como um compasso. Lâminas feitas com pedras semipreciosas cortadas em tiras, que permitiam ver de perto, eram joias valiosíssimas. Matemáticos e cientistas anônimos do Oriente e do Ocidente estudaram a incidência da luz em espelhos esféricos. Os óculos sempre tiveram seu lugar na história da humanidade: os monges nas bibliotecas, os jesuítas com seus saltérios, os funcionários das coroas, os homens de letras. E depois veio o charme da moda: o aviador com seus óculos verdes, ray ban; John Lennon com seus aros dourados e redondos; Marilyn Monroe com seus óculos escuros de gatinho, retirados antes da dose de barbitúricos, gata suicidada.

É um prazer sempre renovado ajeitar os óculos no rosto com as mãos, as hastes envolvendo as orelhas. Máscara de vidro. Valioso instrumento. Luneta potente. Quando prendo os cabelos e coloco os óculos, torno-me clarividente.

 

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