COLUNAS

Márcio de Camillo: a música nas asas da poesia

POSTADO EM 07 OUT 2017 por: Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos Márcio de Camillo: a música nas asas da poesia
(Foto Capa: Márcio de Camillo/Divulgação)
 
 
 
 
 
 
 
 
Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos*
 
Cantor, compositor e instrumentista, Marcio de Camillo nasceu em São Paulo, mas foi criado no Mato Grosso do Sul. Lançou seu primeiro disco, Olhos d’Água, em 1996, e desde então ganhou reconhecimento nacional e internacional por seu trabalho, tendo sido convidado pela Unesco, em 2003, a participar do seminário Artists in Development. É o criador da AMP
(Associação dos Músicos do Pantanal) e desde 2012 tem excursionado pelo país com o espetáculo Crianceiras, no qual, com aguda sensibilidade, musicou as poesias de Manoel Barros.
 
Quando a descoberta da música e quais as influências mais importantes em sua formação musical?
 
Morava em Campo Grande, MS, e conheci no colégio Rodrigo Sater, irmão de Almir Sater. Foram eles que me ensinaram a tocar violão. Sempre aprendi observando. Mas foi o movimento Prata da Casa, importante evento musical de Mato Grosso do Sul, na década de 80, que despertou em mim o sentimento pela música. Foram aqueles artistas que me influenciaram na época. Minhas maiores influências são Almir Sater, Renato Teixeira, Jorge Drexler, Tom Jobim, Chico Buarque, Caetano e tantos outros. Difícil falar, pois são muitos. Escuto de tudo e gosto, principalmente, de descobrir músicas de lugares bem distantes. O diferente me atrai.
 
Para Zuza Homem de Mello, “a ligação natural da música do Brasil com o violão se espalha desde as casas de chão batido do sertão às mais nobres salas de concerto e seus executantes estão entre os mais admirados no mundo.” Além de violão, você também toca viola caipira. Que papel tem esses instrumentos em sua trajetória?
 
O violão veio por osmose. Em casa, meus irmãos tocavam. Mas foi na rua, vendo amigos, que aprendi realmente. Depois, fui aprender violão clássico com alguns professores. Um mestre muito importante para minha formação foi o violonista Ulisses Rocha. A viola veio pela mão do grande violeiro Roberto Correia. Em 2004, inventei um Festival no Rio de Janeiro, junto com a produtora Izabella Maggi, minha esposa, chamado Violas do Brasil, no CCBB. Foi quando conheci o Roberto. Ele me fez uma provocação. Por que você não toca viola? Me deu um método de presente, que ele havia escrito e disse: “vá agora mesmo mandar fazer a sua viola caipira.” Assim eu fiz.
 
Seu primeiro disco, Olhos d’Água, lançado em 1996, é uma mistura de ritmos de fronteira (chamamé e guarânia), além de ritmos bem brasileiros (baião, maracatu, arrasta-pé). Como foi misturar tantos ritmos, aparentemente diversos?
 
Sempre digo que fazer o primeiro disco é fácil. Difícil é o segundo. Coloquei todas as influências nesse disco, principalmente coisas que ajudaram na minha formação. Não me preocupei com a unidade. Só a emoção de estar gravando minhas próprias canções já era o máximo. Creio ser assim para muitos artistas.Tenho carinho por esse primeiro trabalho, mas escutando minha voz hoje, adoro ter 47 anos. Canto bem melhor! (rsrsrs)
 
Em 2001, você lançou seu segundo disco, Telepaticamente, utilizando-se de samplers e guitarras. Por que razão a mudança?
 
Conheci Zé Geraldo, viramos grandes amigos e parceiros. Zé é daqueles amigos que chegam na hora certa na sua vida. O cara me mostrou o som das guitarras e me colocou num universo que ia desde Raul Seixas, até Kate Richards. A tecnologia veio com o Mario Manga, produtor do meu segundo cd. O que eu posso dizer é que o cd Telepaticamente é mais folk rock. Como eu disse anteriormente, difícil foi fazer o segundo cd. Várias canções tocaram nas rádios. É o meu cd mais radiofônico. Nele está a canção “Nos Raios da Manhã”, minha e do Zé Geraldo, um encarte super bacana, feito por Lula Ricardi e as fotografias da capa, tiradas embaixo d’água, em Bonito, MS, pelo fotógrafo Mario Castello.
 
O que o levou a criar a Associação dos Músicos do Pantanal?
 
Fui selecionado pela Unesco para um workshop, que acabou me levando para a Europa. Foi lá que me deparei com várias organizações parecidas com a AMP. Na volta ao Brasil, resolvi fazer a mesma coisa. Juntamos 80 artistas na associação, um verdadeiro cardume. Criamos um programa de rádio, na FM Cultura do MS, chamado Amplificando, e dois projetos em escolas públicas e universidades. Realizamos mais de 300 shows, envolvendo todos os músicos da associação.
 
E a experiência de produzir, apresentar e dirigir um programa de televisão, cujo enfoque era a arte produzida no Brasil central?
 
Uma vez, em Barcelona, peguei um DVD, numa locadora, que falava sobre um Palco Móvel, que circulava pelo interior da Espanha. A ideia era mostrar para o interior a cultura daquele pais, pois muitas pessoas desconheciam os seus artistas. Percebi que acontecia o mesmo aqui no Brasil. E quando a Globo do MS me convidou para apresentar o programa, tudo veio a calhar. Criamos o Meu Mato Grosso do Sul. Saí do programa em 2015, depois de três anos e meio, para me mudar para São Paulo, mas creio ter contribuído com alguma coisa, principalmente com a cultura do meu lugar.
 
Numa entrevista, tempos atrás, você afirmou que “o projeto Crianceiras nasceu do desejo de reverenciar a obra de Manoel de Barros, através de minha música.” Como foi a aproximação com o poeta?
 
Conheci o poeta através de um amigo em comum, Marcelo Buainain. O destino nos aplica peça, pois, nessa noite, conheci a mulher da minha vida, Izabella, mãe da Mariah, nossa filha, que, aliás, canta Sombra Boa, no cd Crianceiras, a música mais pedida nos shows. Uma vez, eu e Izabella fomos à casa do poeta e contamos que foi naquela noite que começamos a namorar. Ele disse: “espero ter sido o cupido e não o culpado”. (rsrsrs) Manoel sempre foi generoso com todos, do mais simples ao mais letrado. Sua poesia mostra sua personalidade. “Pedaço de mosca no chão: meu abandono!”
 
O cd Crianceiras Manoel de Barros transformou-se em espetáculo, em 2012. De lá para cá, continua sendo encenado por todo país . Ao criá-lo, imaginava tanta repercussão?
 
Não imaginava! Para mim, foi uma surpresa como tudo aconteceu. A única coisa que eu sabia era que deveria primar pela qualidade, chamando sempre bons profissionais para somar nessa peraltagem. Pessoas comprometidas com a arte contemporânea para crianças.
 
Você também musicou as poesias de Mário Quintana. Como foi mergulhar no universo poético de outro grande nome de nossa literatura?
 
Através de um professor de literatura, quando eu tinha quinze anos, conheci o poeta Mario Quintana. Lembro que, naquela época, eu começava a sonhar em ser compositor. Pirei na forma como ele escrevia seus poemas.Ficou essa gratidão com o Quintana e foi natural musicar sua obra. Além disso, seu segundo livro chama-se Canções, ou seja, a provocação estava feita.
 
Crianceiras Manoel de Barros e Crianceiras Mário Quintana mereceram indicações ao Prêmio da Música Brasileira, como melhores álbuns infantis.O que isso significou para você?
 
Foi a primeira vez que entrei no Theatro Municipal do Rio de Janeiro e também a primeira vez que trabalhos meus foram reconhecidos pelo Prêmio da Música Brasileira. Serviu para perceber que estamos no caminho. Manoel tem um verso que fala: “Poesia é voar fora da asa”. Eu digo que o Crianceiras é a asa da poesia.
 
Como analisa o cenário atual da música brasileira, as leis de incentivo à cultura e o espaço que a grande mídia oferece aos artistas?
 
Tenho uma grande preocupação em relação ao fim das orquestras pelo país e ao congelamento dos fundos de incentivo à cultura. O curioso é que sempre os gestores cortam o ínfimo recurso existente na pasta da cultura. Percebo que o caminho ainda é muito longo para o Brasil pensar em chegar a algum lugar.A mídia nunca mudou. O importante é pensarmos na arte, na arte como educação. O resto é perfumaria. É sempre do resto que se serve a poesia: “tudo que é bom para o lixo, é bom para a poesia”.
 
 
*Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.
 
 
 
 
 
 
 
 

VEJA TAMBÉM

ENQUETE

Michel Temer presidente: com uma série de propostas impopulares para resolver, Temer vai conter a crise econômica?
sim
nao