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LOBIVAR MATOS E MANOEL DE BARROS - CESÁRIO VERDE E FERNANDO PESSOA: APROXIMAÇÕES

POSTADO EM 25 NOV 2017 por: Raquel Naveira LOBIVAR MATOS E MANOEL DE BARROS - CESÁRIO VERDE E FERNANDO PESSOA: APROXIMAÇÕES
(Foto: Cristiana Carneiro)
 
 
 
 
 
 
 
 
Raquel Naveira
 
Chegamos a Corumbá percorrendo as serras, observando o voo dos tuiuiús e das araras azuis, espalhando pelo ar o pó claro da terra calcária. As ruas de paralelepípedos, os casarões antigos, as palmeiras que levam ao porto, tudo nessa cidade é mágico. É fronteira vazada, tríplice (Brasil, Paraguai e Bolívia); é passado das culturas da platina e do chaco. À noite, fantasmas percorrem as avenidas largas. Foi assim que encontrei em frente ao cais, lugar de saudades que se transformam em pedras, o poeta Lobivar Matos. Magro, baixo, orelhas de abano, olhar inquieto, esse corumbaense falecido precocemente em plena fase de amadurecimento pessoal e do movimento modernista, estendeu-me a mão e me fez caminhar pelas páginas de seus livros, pelas sílabas e silêncios de seus poemas. Areotorare, o livro de estreia, refere-se ao índio quefala aos irmãos da tribo, em volta da fogueira, contando histórias e perpetuando lendas.Sarobá, nome de um bairro pobre de negros, lugar sujo, miserável, onde habitavam amulata Isaura, o Nhô Juca, Mané Galvão, os moleques, as lavadeiras, os marginalizados, os excluídos, os anônimos, figuras humanas tristes, quase trastes, vestidas de trapos, acostumadas ao banzé de cuia, à bagunça, ao forrobodó. “_Vê, disse-me ele, é uma mancha negra bulindo na cidade mais branca do mundo”. De uma bicapingava água e fazia lama no chão socado.
 
Conduziu-me a uma igreja, onde ficou namorando os desgraçados encolhidos na escadaria. “_ Os verdadeiros santos”, confessou-me ele sobre sua religião pessoal que misturava dor, compaixão e solidariedade.
 
Literatura é mesmo invenção e memória, concluo enquanto chacoalha o ônibus que me afasta de Corumbá e do fantasma de Lobivar. Abro o livro A Vida e a Obra de Lobivar Matos: o modernista (des)conhecido”, da professora Susylene Dias de Araujo, sua tese de Doutorado, defendida na Universidade Estadual de Londrina (UEL). Mas se é um trabalho científico em que a autora apresenta Lobivar Matos como “o sábio bororo de Areotorare”; o poeta-filósofo- fotógrafo que revela Sarobá à luz dos lampiões e da consciência sociológica; o poeta que nos deixou um livro inédito, o Rendas da Interrogação, datado de 1933, formatado pelo próprio autor, resistindo ao tempo, cheio de devaneios poéticos, coletânea de epígrafes e referências, permeado de dúvidas que se trançam como rendas nas rodas do Destino, por que choro assim? Por que as lágrimas inundam minha face constatando quão inútil foi para o poeta sofrer tanto pela humanidade? Ofereceu-se como sacrifício vivo. Ele que acordara contente numa manhã de sol, com vontade de se estirar na areia, mas que, ao lembrar dos milhares de irmãos injustiçados, trancafiados nas prisões, começou a sentir a úlcera do fígado doer, doer, até estourar. Gemeu e gritou até a morte. As veias e os versos secos.
 
No capítulo “A Amizade Literária”, um encontro, um tesouro, uma aproximação no tempo e no espaço: Lobivar Matos e Manoel de Barros foram amigos na infância, habitaram o chão da branca cidade de Corumbá. Embora de famílias diferentes, receberam o sobrenome Barros em seus registros de nascimento. Lobivar, o mais velho, de 1915, teve sua vida abreviada aos 32 anos. Manoel, de 1916, faleceu aos 98 anos, gênio reconhecido, aclamado pelo público leitor e pela crítica. Lobivar e Manoel se conheceram, conviveram em Corumbá e no Rio de Janeiro, onde ambos cursaram Direito e tentaram ampliar seus horizontes existenciais e literários. Lobivar apresenta Manoel como “um novo poeta que surge”, “um poeta originalíssimo” o seu amigo Nequinho. Fala entusiasticamente de uma efervescente  geração de poetas, anuncia o surgimento de modernistas no sul de Mato Grosso. Em 1936, Lobivar publica Areotorare. Um ano depois, Manoel publica Poemas Concebidos sem Pecado. Dois jovens poetas amigos. “Lobivar, o Lolito, foi meu amigo até uma semana antes de sua morte”, escreveu Manoel de Barros em carta à professora Susylene, resgatadora de fios e rendas. Influenciaram-se mutuamente. Lobivar vaticinou a liberdade. Manoel viveu-a com intensidade criativa.
 
Essa história me lembrou de outro encontro, outro tesouro, outra aproximação: Cesário Verde e Fernando Pessoa, poetas modernistas portugueses. Amo a dicção dos poetas portugueses! Cesário Verde nasceu em Lisboa, em 1855, filho de um lavrador e comerciante. Foi obrigado a dedicar-se às atividades práticas que colidiam com seu temperamento sensível. Faleceu em 1886, aos 31 anos. No ano seguinte, Silva Pinto reuniu seus poemas no O Livro de Cesário Verde. Trata-se de um lirismo não amoroso, não metafísico, de um repórter atraído pela cidade pulsante, cheio de emoção perante o real cotidiano, fascinado pela paisagem citadina, que, ao mesmo tempo, o seduz e o repele, como um visgo, um nojo, um desencanto. No longo poema “O Sentimento de um Ocidental” aparecem “as ruas de Lisboa ao anoitecer, soturnas, melancólicas, as sombras, a maresia do Tejo, o gás extravasado, as chaminés, a turba, as fragatas ancoradas, o miado das gatas, o cheiro de peixe podre gerando focos de infecção”. Tudo muito forte, moderno e perturbador.
 
Morre tão jovem Cesário Verde! O lírico insatisfeito, o visionário de objetos e belezas que só mais tarde viriam a ser explorados por Fernando Pessoa, seu discípulo,
seu continuador.
 
Fernando Pessoa, maior poeta português depois de Camões, nasceu em Lisboa em 1888 e faleceu em 1935, aos 47 anos de idade, de cirrose. Assinando com seu heterônimo Álvaro de Campos escreve o poema “Lisbon Revisited”, claramente inspirado em Cesário Verde. Álvaro de Campos, na cosmovisão pessoana, é poeta irritadiço, grandiloquente, niilista, ofensivo, agressivo em contato com a civilização nas suas engrenagens de máquina. E desabafa aos seus contemporâneos cegos: “Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!”
 
Encontros, tesouros, aproximações: Lobivar Matos/Manoel de Barros-Cesário Verde/Fernando Pessoa. A arte é longa; a vida é curta. Mais curta ainda para os amados poetas que morreram jovens. Alguns pontos sempre aproximam os poetas: amizades, cidades, livros, pedras, portos e rios. O rio Paraguai e o rio Tejo desembocam na foz, na voz de seus poetas, penso, o rosto encostado no vidro do ônibus que atravessa o Pantanal.
 
 
 
 
 
 
 

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