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Emerson Danesi: o fazer político e estético do teatro

POSTADO EM 06 JAN 2018 por: Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos Emerson Danesi: o fazer político e estético do teatro
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos*
 
 
Formado em Publicidade e Propaganda pela Faculdade de Comunicação Cásper Líbero, em Artes Plásticas pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo e em Teatro pela Fundação de Artes de São Caetano do Sul, o ator, produtor e diretor Emerson Danesi ingressou no Centro de Pesquisa Teatral (CPT) do Sesc São Paulo, criado e dirigido por Antunes Filho, em 1996. Em seu currículo estão espetáculos com imenso êxito de público e crítica, como Lamartine Babo, Marguerite Mon Amour, O Canto de Gregório, Antígona, Policarpo Quaresma, O Céu Cinco Minutos Antes da Tempestade e A Pedra do Reino.
 
Quando a descoberta do teatro e a opção de nele trabalhar?
 
Na verdade, iniciei na Faculdade de Comunicação Cásper Libero. Fazia, então, o curso de Publicidade e Propaganda e Marlene Fortuna, que foi atriz aqui no CPT por dez anos, era minha professora de História da Arte e História da Comunicação. Numa das aulas, ela propôs que fizéssemos um exercício sobre discurso aberto e meu grupo resolveu apresentar uma espécie de encenação com os poemas de Fernando Pessoa. Marlene adorou e me perguntou se eu era do teatro. Disse que não e ela quase me obrigou a participar dos encontros de teatro organizados pelo pessoal do Grêmio Acadêmico. Foi aí que tudo começou. Depois, fiz a Faculdade de Belas Artes, em Artes Plásticas. Fui para a Fundação das Artes de São Caetano fazer o profissionalizante em teatro e prestei o CPTzinho, em 1996. Passei nos testes e fui direto para o elenco de Drácula e Outros Vampiros e cá estou até hoje.
 
Em Lamartine Babo, espetáculo dirigido por você em de 2012, há uma atmosfera nostálgica, ao resgatar a figura e o tempo de um dos grandes gênios de nossa música popular. Como se deu o processo de pesquisa desse espetáculo?
 
Foi um projeto longo. A primeira proposta de Antunes foi que alguns integrantes do espetáculo A Pedra do Reino se juntassem para a tentativa de criação dessa homenagem ao compositor que ele tanto gostava, onde os atores mergulhariam na pesquisa, escolheriam o repertório e escreveriam a dramaturgia baseados na vida e obra de Lala. Depois de algum tempo, apresentaram o esboço e, então, Antunes resolveu escrever o texto. Baseou-se em Seis Personagens em Busca de um Autor, do Pirandello e concebeu o lugar onde uma banda fanática por Lamartine Babo ensaiava seu repertório e no meio de um desses ensaios aparecia um Senhor muito estranho com sua sobrinha, falando coisas absurdas. Ao terminar o texto, Antunes pediu para que uma atriz do grupo, a Vanessa Bruno, dirigisse e que fizesse testes para o elenco. Eu, inclusive, entrei nesse momento como um dos cantores integrantes da banda. Ensaiei por um tempo, mas fui solicitado para recuperar algumas cenas que havia feito nas edições do projeto Prêt-à-Porter para uma espécie de coletânea e tive que me afastar do processo de Lamartine para me dedicar ao resgate dessas cenas. O Prêt-à-Porter Coletânea entra em cartaz e Vanessa mostra um esboço, Antunes assiste, faz observações e críticas e eles retomam os ensaios, apresentam mais uma vez e então Antunes acha que não está bacana e pede para Eric Lenate dirigir. Algumas tentativas são feitas novamente e o projeto foi engavetado.  Com o bom andamento do Prêt-a-Porter Coletânea, Antunes me chama, então, para dirigir, dizendo: “pega essa sua poesia do Prêt-à-Porter” e vamos fazer uma última tentativa, senão der certo, desistimos. E graças! Ele gostou muito, quando apresentamos. Ficamos sete anos com o projeto. Foi um presente! Entrar em contato com a vida e obra de Lala foi extremante encantador. Um mistura de humor e nostalgia, uma saudade de um Brasil que não mais existia e esse ser quase chapliniano, que caminhava entre a ingenuidade e o sarcasmo, foi maravilhoso. As canções, a parceria com Fernanda Maia, convidada para fazer a direção musical, a entrega do elenco, enfim, tudo muito mágico. A costura da dramaturgia proposta por Antunes com as canções, como encaminhamento emocional do espetáculo, foi o grande achado. E também descobrirmos quem eram os integrantes indicados no texto como banda. Achar esses tipos, criar uma estória para cada um e como cada um chegou para esse grupo, que tinha uma ligação tão forte com o compositor, foi saboroso demais.
 
Que características considera essenciais para o pleno desenvolvimento do ator?
 
Disciplina, paciência, obstinação e amor, muito amor ao ofício. Ah! Claro muita leitura, boas referências das várias ramificações na arte – cinema, artes plásticas, música, dança, enfim, tudo que possa afinar a sensibilidade e, sem dúvida, técnica. Sem ela, é impossível sair do lugar.
 
Anatol Rosenfeld afirmou, certa feita, que: “Brecht se empenha, através da mediação estética, pela apreensão crítica da vida e, deste modo, pela ativação política do espectador.” O teatro deve ser uma ferramenta social, para conscientização das massas? E o teatro que não se propõe a questionamentos políticos, interessa a quem?            
 
 Nós, aqui no CPT, acreditamos que toda ação no palco será politica, portanto ética. Mas que somente a estética poderá estabelecer o vínculo essencial com a plateia. A poesia tem que andar de braços dados com a política, com a crítica, com a denúncia e essa junção é muito difícil. É uma linha tênue entre estabelecer o questionamento, sem ser panfleto, pois não pode ser jornalismo, tem que ser arte. Por exemplo, em Marguerite elegemos um momento em que toda denúncia é feita através da carta, escrita pela mãe aos corruptos agentes do cadastro na Indochina. E que parece ter sido escrita, hoje, agora.
 
Em Marguerite Mon Amour temos uma dramaturgia repleta de personagens presentes em várias obras de Marguerite Duras. Pode nos contar um pouco sobre o espetáculo?
 
Outra longa estória. Lemos absolutamente tudo que conseguimos achar dela e sobre ela, Marguerite Duras, como também assistimos a tudo o que encontramos em cinema (dirigido por ela ou por outros diretores), documentários, teses, peças, enfim, foi um estudo bastante vasto. Passamos depois para improvisações e fomos percebendo o que, de todo esse material estudado, havia reverberado com mais contundência para o grupo. Chegamos, então, aos dois ciclos considerados míticos da obra da escritora: o Ciclo Indochinês, que trata de todo o período que Duras viveu nesse lugar tão radicalmente oposto à Europa, com a família em situação de quase miséria. A história de amor, de paixão e descoberta do desejo com um chinês em sua adolescência, assim como sua impossibilidade. E o Ciclo Indiano, também colocando os brancos europeus se desestruturando em estado de quase loucura, num lugar absolutamente intenso em sua imensidão. O Ganges, a lepra, as doenças e a miséria novamente aterrorizando e convocando o olhar da escritora para esse momento de “perda” de cada personagem. Já que “é disso que se trata, do impossível da vida” ou “da natureza do desejo e seu poder destrutivo”.) Adentrar nesse universo tão biográfico e ficcional, simultaneamente levou a todos a um estado de memória, de mexer com questões da infância, do passado, da família, dos amores e desamores de maneira abismal. Foi muito intenso, mas absolutamente poético. A palavra de Duras é de um poder sensorial e labiríntico imenso. E nessa experiência toda a dramaturgia foi sendo construída e costurada com vários fragmentos, sensações, imagens, objetos, sons, ruídos, músicas, gestos, olhares, respirações que brotaram dessas improvisações e laboratórios nos corpos e na alma dos atores.
 
O que considera mais difícil ao dirigir um espetáculo teatral?
 
Encontrar o lugar da peça, sem dúvida, é uma das coisas mais difíceis. Aqui no CPT ouvimos muito Antunes dizer que temos que deixar brotar do interior da dramaturgia o que é necessário para que ela se realize. Não há uma imposição externa, uma vontade somente do diretor ou do ator, mas há algo de essencial que ecoa das brechas do texto. E precisamos estar atentos e sensíveis para captar essa essência.
 
Você afirmou, certa vez, que o relacionamento profissional com o diretor Antunes Filho é “belo e pavoroso”. Qual a razão?
 
Por se tratar desse ser absolutamente intenso, rigoroso, sensível, provocador e que te leva a lugares ao mesmo tempo tenebrosos e maravilhosos. Como ele mesmo diz, o teatro é uma arte mineral, tem que cavar fundo. E isso dói, mas o resultado, depois de toda a árdua jornada, é esplendoroso.
 
O diretor, no seu processo de trabalho, deve ter como meta agradar o seu público ou priorizar seus ideais estéticos?   
 
Acho que tem que estar com um olho no gato e outro no peixe (rsrsrs). Claro que toda a criação partirá dessa busca estética, do rigor, da precisão, da limpeza, da beleza, da poesia, mas necessariamente tem que comunicar, tem que tocar, questionar, arranhar, acarinhar, enfim, comungar com a plateia.
 
Eugenio Barba afirmava que “É esta a dialética que caracteriza a relação diretor-atores, atores-diretor, espetáculo-espectadores. Uma relação contínua de traduções e de traições, na qual um parte do ponto em que o outro chegou.”  É por aí mesmo?
 
Esse processo de osmose ou simbiose que acontece entre ator/diretor, ator/personagem, dramaturgia/encenação e posteriormente espetáculo/plateia é alquímico. Entramos nos ensaios como um ser e durante todo o processo somos transmutados em outro ou outros seres. E assim também será por aquele espaço de tempo (que dura uma apresentação) para o espectador. É uma experiência única. Por isso, quem se aproxima dessa arte, dificilmente consegue se afastar, consegue deixar de fazê-la. O passaporte fica carimbado com tantas viagens a lugares mágicos – países, cidades, povos do imaginário.
 
Novos projetos para 2018?
 
Por enquanto, cuidar do próximo CPTzinho. Acabamos o processo seletivo recentemente e iniciaremos as aulas em janeiro de 2018. E essa experiência pedagógica que temos aqui no CPT é igualmente transformadora e inspiradora. Aprendemos muito dando aula. Para mim, a pedagogia é tão prazerosa quanto estar em cena, seja atuando ou dirigindo. E também estamos fomentando um possível novo núcleo de dramaturgia, com alguns integrantes de CPTzinhos passados e elenco escrevendo. Ficarei na coordenação desse processo. Espetáculo ainda não. Queremos aproveitar um pouco mais Marguerite, Mon Amour e, quem sabe, voltar com Lamartine Babo e Blanche, esta última dirigida pelo Antunes Filho.
 
 
 
*Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.
 

 

 

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