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Dionisio Jacob: o artista e suas memórias

POSTADO EM 06 JAN 2018 por: Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos Dionisio Jacob: o artista e suas memórias
 
 
 
 
 
 
 
Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos*
 
 
Escritor premiado (A Utopia Burocrática de Máximo Modesto, Assombros Urbanos, Os Estudos Merismais  de um Famoso Doutor, A Espada e o Novelo, A Lenda de Abelardo, Uma Vida na Arte) ,artista plástico, roteirista de televisão(Castelo Tim Bum), fundador do grupo teatral Pod Minoga, Dionísio Jacob relembra, nesta entrevista, a rica trajetória de seus pais, os atores Flora Geni e Dionísio Azevedo, figuras bastante populares no teatro, televisão e  cinema, ao longo de mais de quatro décadas.
 
Em que momento da vida você se deu conta de que era filho de dois atores famosos e largamente respeitados pelo público?
Desde crianças, eu e meu irmão adquirimos consciência de que nossos pais eram pessoas conhecidas. Os dois eram parados toda hora na rua para autógrafos ou conversas com os primeiros telespectadores. Entretanto, naqueles anos 50, a mídia estava longe de ter a penetração e o poder atuais. Nem todos ainda tinham televisão e havia até mesmo a instituição dos televizinhos. Como eu conto no livro, minha mãe fazia feira e outras atividades comuns, impensáveis para uma atriz famosa nos dias de hoje. E a nossa infância transcorreu do modo mais natural possível, sem que esse reconhecimento dos nossos pais representasse uma condição especial: jogávamos bola com toda a molecada do Sumaré e éramos parte da turma.
 
O que acredita ter sido a maior influência recebida de Dionísio Azevedo e Flora Geni?
A arte. A necessidade de expressão. Estarei sempre agradecido aos dois pelo legado que me passaram, pelos livros que havia em casa, pela vontade de crescer dentro do trabalho e, principalmente, pela visão generosa. Escrevi um livro sobre mitologia grega, chamado A Espada e o Novelo, em que o personagem principal é um contador de histórias chamado Laodemo. Dediquei o romance aos meus pais, porque é isso que eles sempre foram: contadores de histórias. Fizeram parte dessa tradição tão antiga, desse gesto tão simples e necessário que é alguém contar uma história para alguém que escuta. E me sinto, neste sentido, um discípulo dos dois.
 
Pode nos contar um pouco sobre a trajetória de vida de Dionísio e Flora, sobre terem sido filhos de imigrantes que vieram fazer a vida num país que tanto prometia?
Bem, meu pai era filho de imigrantes árabes que foram parar no sul de Minas no início do século passado. Meu avô chegou a mascatear pelo interior daquele estado e como tiveram muitos filhos, dos quais meu pai foi o primogênito, a vida não era nada fácil. Minha avó, uma mulher muito religiosa, presbiteriana, também costurava para fora. Preocupados com o futuro dos filhos, resolveram se mudar para São Paulo, o que fizeram no início dos anos 30, mais ou menos.  Instalaram-se na zona leste da capital, vivendo entre o Belém e o Tatuapé. Já minha mãe era filha de espanhóis, de Barcelona, que vieram para o Brasil na mesma época que meus avôs paternos. Ao contrário de meu pai, ela foi a caçula da família. Instalaram-se no bairro de Vila Mazzei, na zona norte, ao lado do Tucuruvi e do Jaçanã. O pai dela, meu avô Francisco, era pedreiro e construiu diversas casinhas no bairro, daquelas com arco na varanda, hoje solapadas pela verticalização. As duas famílias eram constituídas por gente corajosa, como, aliás, os imigrantes todos. E creio que a coragem de lutar pela vida, mesmo em condições adversas, foi o legado que eles receberam.
 
 Como se deu o encontro de ambos com a arte de interpretar?
Meu pai sempre foi um ator nato. Desde menino, em Muzambinho, era assíduo das sessões matinês, com os velhos bang-bangs tipo Tom Mix. Foi aí que nasceu o sonho do cinema. Ele tentou até fugir com um circo que apareceu na cidade, segundo se conta na família. Tentativa, aliás, frustrada. Já em São Paulo e freqüentando a Igreja Presbiteriana do Brás, tomava parte nas encenações religiosas. Até que descobriu, no centro de São Paulo, um instituto pioneiro de cinema, onde conheceu seu mestre, o cineasta Lima Barreto, diretor do filme O Cangaceiro, um dos primeiros filmes brasileiros a ter grande reconhecimento internacional. Ali ele fez seu aprendizado maior. Mas como cinema no Brasil naquela época era coisa de visionários, ele precisou ganhar a vida de alguma forma. O Lima Barreto o apresentou a pessoas importantes do ambiente do rádio. Durante os anos 40, meu pai se tornou uma das vozes mais conhecida do rádio-teatro paulistano. O ator Lima Duarte dá uma declaração muito bonita sobre esse tempo, que incluí no livro sobre meus pais. Daí para a televisão foi algo natural. Vieram também o teatro e o cinema. Ele foi um artista completo.Minha mãe sonhava inicialmente em ser uma cantora, como aquelas cantoras do rádio, cujas vozes alcançavam todo o Brasil através da radiofonia. Chegou mesmo a dar alguns passos nessa carreira, gravando um disco e trabalhando como crooner de orquestra, animando bailes carnavalescos da época. Por conta do seu timbre de voz, foi convidada para participar de um rádio teatro e apaixonou-se pela profissão. Foi mais ou menos nesse período que os dois se encontraram. Eles devem ao rádio também os seus nomes artísticos. É que naquele tempo os rádio-atores procuravam utilizar pseudônimos sonoros (ou audiogênicos). Assim, o Taufik Jacob, de meu pai se transformou em Dionisio Azevedo e o Eugênia Tortejada, de minha mãe, em Flora Geni (ou Geny como também era grafado).
 
Fazer televisão nos anos 1950/60 era um exercício de criatividade desafiador. Como Dionísio e Flora viam as transformações e o empobrecimento de conteúdo por que a televisão passou, sobretudo a partir dos anos 70, apesar de sua popularização extraordinária nesta mesma década?
O início da televisão no Brasil foi algo impressionante pela qualidade de atores e atrizes envolvidos e também pela ousadia temática. Como ainda não havia Ibope e outras questões ligadas à audiência eles puderam levar ao ar, durante toda uma década, adaptações de grandes clássicos da literatura brasileira e universal: Tchecov, Henry Miller, Jorge de Lima, Guimarães Rosa, Shakespeare e muitos outros. No livro eu disponibilizei uma lista daqueles teleteatros, que apesar de não ser a mais completa, fornece um panorama do que foi aquela aventura única. E tudo sem vídeo tape! Eram verdadeiros teatros ao vivo. O principal deles o Tv de Vanguarda ia ao ar todo domingo à noite e era muito assistido.Com a chegada da Tv Excelsior, nos anos 60, a televisão passou a adquirir a feição mass-media bem conhecida, com a importância cada vez maior do segmento comercial. Foi na Excelsior que se iniciou o fenômeno das novelas e meu pai mesmo esteve na gênese deste formato que, independentemente de gosto ou qualidade, acabou se transformando numa faceta da nossa cultura popular. Entretanto, a maior preocupação dele naquele início foi a de elevar o padrão da teledramaturgia.  Na condição de diretor artístico da emissora, trouxe para a tv dramaturgos do porte de Lauro César Muniz. Também dirigiu novelas como O Tempo e o Vento, baseada na obra prima de Érico Veríssimo, além de produzir minisséries como O Morro dos Ventos Uivantes. Os dois sempre procuraram fazer uma força para cima no sentido de buscar uma televisão onde o aspecto comercial pudesse conviver com realizações mais culturais.
 
E o cinema, que papel teve na carreira de Dionísio?
Era o sonho inicial dele. Remonta à infância, às sessões de matinê e também ao aprendizado com o Lima Barreto. Trabalhou muito como ator, mas infelizmente, por diversas circunstâncias não conseguiu deixar uma filmografia própria muito extensa. Dirigiu apenas quatro longas-metragens: Chão Bruto, O Anjo Assassino, A Virgem e um remake do Chão Bruto. Já como ator, ele foi um dos rostos marcantes do nosso cinema entre os anos 50 e 70, participando de inúmeros filmes. No livro estão as fichas técnicas de todos esses filmes, com comentários e críticas. Seu trabalho mais famoso foi,, sem dúvida o padre Olavo, do filme O Pagador de Promessas, que ganhou a Palma de Ouro, do Festival de Cannes, de 1962, na verdade, o único filme brasileiro a conseguir tal proeza.
 
Além de ator e diretor, Dionísio, foi um bem sucedido roteirista e tinha especial admiração por Guimarães Rosa.  Que outros autores contavam com a predileção dele?
Realmente, meu pai foi dos principais roteiristas do início da televisão, ajudando a formatar a teledramaturgia nascente. Isso não é opinião minha, que era pequeno àquele tempo, mas de colegas de geração como o próprio Lima Duarte entre outros. Foi dele a primeira adaptação de Guimarães Rosa para a televisão (antes mesmo de que o cinema o fizesse). A Hora e a Vez de Augusto Matraga, foi um momento dos mais marcantes daqueles primeiros  Tvs de Vanguarda. Guimarães Rosa foi a grande paixão de meu pai, pela mineiridade, pela universalidade. Mas ele gostava de muitos outros autores, como Érico Veríssimo, por exemplo.Aliás, o sobrenome Azevedo ele tirou de Aluisio Azevedo, a quem admirava. No cinema, o seu roteiro para o primeiro Chão Bruto, baseado na obra homônima de Hernani Donato, chegou a ganhar o troféu Saci, dado pelo jornal O Estado de S.Paulo, como melhor roteiro adaptado.
 
A morte trágica de Noel,  seu único irmão, em 1969, transformou imensamente a vida de sua família. De onde veio o conforto para que recomeçassem? E a morte de Flora, três anos antes de Dionísio, foi o que o levou a afastar-se definitivamente da carreira?
Eu tinha 17 anos quando meu irmão veio a falecer num acidente.  Foi um choque terrível. Nem é preciso dizer o que isso significa para quem é pai ou mãe. Essa é, com certeza, uma das dores mais difíceis de suportar. Minha mãe, num primeiro momento se afastou da vida artística, interrompendo uma carreira brilhante. Ela foi uma atriz de destaque na Tupi e na Excelsior, entre os anos 50 e 60. Foi,talvez, a primeira de uma linhagem de grandes vilãs, como ela mesmo descreve num depoimento dado para o Idart e incluído no final do livro. Mais tarde ela voltou a atuar em algumas novelas e peças de teatro, mas sempre mais como uma participação especial. Já meu pai prosseguiu até porque era necessário. Deu continuidade à sua carreira com vários trabalhos de destaque. De fato, a morte de minha mãe, em 1991, foi um momento extremamente difícil para ele. Mas ele já havia se afastado dos trabalhos um pouco antes, por problemas de saúde. Os dois precisaram de muita força e, principalmente, fé, para superar a morte de Noel. E, graças a Deus, tinham bastante, pois vinham de famílias fortes, unidas e com um sentido muito sólido de religiosidade.
 
Criado num ambiente que transpirava arte diuturnamente, você e seus pais conversavam com  freqüência sobre o fazer artístico, costumavam trocar experiências sobre trabalhos e projetos?  Gostaríamos também que falasse sobre o que foi o grupo Pod Minoga, do qual você participou nos  anos 70.
 Sim, com certeza havia muito diálogo. Neste ponto foi enriquecedor. Eles assistiam a tudo o que eu fazia e comentavam. E vice-versa. O Pod Minoga, que os dois acompanharam desde o início, foi um grupo teatral do qual participei e que teve uma atuação marcante da década de 70. Era um teatro experimental bem no clima daqueles anos. Fazíamos criação coletiva, ou seja, tomávamos parte de tudo, desde a criação do texto, até cenário, figurinos, etc. Foi uma experiência interessante, criativa, que tinha e tem ainda inúmeros fãs. O grupo se uniu em torno do dramaturgo Naum Alves de Souza, que era o nosso professor. Muitas pessoas passaram pelo Pod, mas os principais foram o Carlos Moreno, a Mira Haar, a Regina Wilke, o Beto de Souza (irmão do Naum) e o Flávio de Souza. Em 2008, o SESC realizou uma exposição sobre o Pod Minoga e também editou um livro: Pod Minoga: a Arte de Brincar no Palco. Neste livro está narrada toda a trajetória do grupo.
 
Quando surgem seus primeiros pendores para as letras. Eles sobrepujaram o artista plástico?
Minha primeira formação foi literária, por conta do trabalho dos meus pais e da grande biblioteca que tínhamos em casa. Sempre gostei muito de ler e de escrever. Mas, entrando na adolescência, me apaixonei por pintura, a ponto de fazer um curso de artes para jovens nos anos 60, que foi aonde eu encontrei as pessoas que mais tarde integrariam o Pod Minoga.  Depois fiz Faculdade de Artes. Mas nunca deixei de escrever e, aos poucos, fui publicando meus livros. Do ponto de vista criativo as duas atividades se completam e nas duas eu me sinto sempre um contador de histórias. Tenho divulgado parte do trabalho visual, que chamo Gravados Digitais, em alguns sites na Internet.
 
Considera-se realizado como escritor ou acredita que o ato de escrever envolve um amadurecimento constante?
De modo algum. Acho que a vida é um processo contínuo. A palavra realização pode ser aplicada a alguém que tenha já toda uma obra feita. No meu caso, como trabalhei sempre com “gavetas”, isto é, com ideias que foram sendo guardadas e reaproveitadas com o tempo, a elaboração constante do mesmo material mostra como sempre é possível aprofundar ou desenvolver um tema.
 
 Novos projetos em pauta? Acredita, como muitos autores, que escrever para crianças traz um  retorno mais rápido que escrever para adultos ou o prazer e o desafio são os mesmos?
Tenho um romance extenso, chamado A  Ponte, no qual venho trabalhando há muito tempo, contemplado com uma bolsa do Programa Petrobrás Cultural (PPC), para que eu possa, enfim, terminá-lo, e quem sabe, publicá-lo. É um trabalho difícil pelo tamanho e também pelo teor. Não é uma obra realista e, embora não goste de rótulos, creio que poderia ser considerada uma narrativa fantástica ou mitológica, mas com temas da atualidade.Em relação à literatura infanto-juvenil, é uma das minhas atividades mais frequentes. Escrevi muitos livros para diversas faixas etárias.  Sempre ffestive envolvido com crianças e adolescentes, pois fui durante vários anos professor de artes em diversas escolas. Cheguei a trabalhar também como roteirista em programas da linha infanto-juvenil da Tv Cultura, como o Castelo Tim Bum, entre outros. No caso da literatura, o fato de as escolas adotarem os livros realmente cria uma ponte concreta entre autor e leitor. Constantemente sou convidado para falar em escolas e esse contato com os leitores jovens é sempre muito vivo e agradável. Tenho publicado bastante nos últimos anos. Em 2017, foi publicado um  livro meu intitulado A Lenda de Abelardo, numa edição muito caprichada da coleção Barco a Vapor (Edições SM), com lindas ilustrações desse maravilhoso artista que é o Rogério Coelho. Trata-se de uma história fantástica, que se passa na Idade Média e num país fictício chamado Hiperbórea. E agora, em 2018, vai sair, pela FTD, uma novela intitulada O Hipnótico Berlioz, uma narrativa satírica, situada nos primórdios da Primeira República, na época dos coronéis, bem no início do século XX.
 
 
 
*Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.

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