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Darson Ribeiro: o teatro e sua universalidade

POSTADO EM 14 ABR 2018 por: Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos Darson Ribeiro: o teatro e sua universalidade

 

 

 

 

Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos*

 

Formado em Artes Cênicas pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), o ator, diretor e produtor teatral Darson Ribeiro, em três décadas de carreira, trabalhou com nomes como Bob Wilson e Pina Bausch, além de ocupar importantes cargos diretivos no Teatro Guaíra, em Curitiba, e no Theatro Municipal de São Paulo. Acaba de estrear seu primeiro monólogo, O Homem que Queria Ser Livro, escrito por Flávio de Souza, no qual dialoga poeticamente com a literatura, uma de suas grandes paixões.

 

Quando a descoberta do teatro?

A sensação é de que nasci fazendo teatro. Para manter uma escolinha, num sítio de inúmeras colônias japonesas, com muitas crianças, minha mãe promovia festas das mais diversas,  adaptava canções sertanejas para o palco e me punha para interpretá-las. Com oito anos de idade, me lembro de levantar o braço, respondendo a uma professora de teatro, na primeira série do ginásio, pois tinha interesse em ser testado para entrar no Grupo Teco (Teatro Comunitário). Fiz o teste, passei e não parei mais.

 

Que recordações marcantes ficaram da infância no interior do Paraná?

A solitude pelos gramados, já querendo alçar vôo. As aventuras de bicicleta, como que tentando, com um veículo mais potente que as minhas pernas, me levar para longe de lá, no meio da natureza, que incluía riachos, cafezais e pastos gigantes. Uma cena recorrente era eu me sentar embaixo de uma mangueira, num local alto, de onde eu podia avistar tanto o telhado da escola quanto o telhado de minha casa. Logo mais abaixo, num vale com riacho, subia uma infinidade de morros. Era para depois de lá que eu queria ir. (rs)

 

Como foram os anos de formação acadêmica, em Curitiba?

O início foi tranquilo, porque eu havia passado num concurso para contador, na minha cidade e fui trabalhar numa das maiores cooperativas agropecuárias do Paraná. A mesma professora que me fez o teste no Grupo Teco, aos oito anos, me ligou. Lembro bem. Eu estava com 19 anos e com um cargo importante na cooperativa. Ela me disse: “Darson, abriu vestibular para Artes Cênicas, na PUC, em Curitiba. Você tem que ir”. Eu estava almoçando em casa. Conversei com minha mãe e ela disse: “Filho, se é o que você gosta e quer, vá.” Faltavam dois dias para o encerramento. Comprei passagem de ônibus para Curitiba, no mesmo dia, e lá fui eu. Desembarquei na rodoviária de Curitiba, sem nunca antes ter pisado lá. Fui perguntando, até que me deparei com o Teatro Guaíra, que foi minha segunda mãe. Esperei numa praça, a Santos Andrade, para iniciar o vestibular, que consistia em análise de texto e prática teatral, no palco do Guairinha, que, anos depois, eu, como coordenador técnico do Guaíra, reformei por completo. Foi a primeira vez que me dei conta do universo que era o teatro, seus autores, suas técnicas, seus subjetivismos e o quanto ele era abrangente e potente. Fiz a prova e no dia seguinte, na própria PUC, o vestibular escrito. Passei e virei notícia em minha cidade.  Quando soube do resultado, de volta à minha cidade, havia quebrado o braço, jogando vôlei e com isso só pude iniciar as aulas depois do trote. Graças! (rs). A turma era de quase 25 alunos. Um ano depois, descobriram um desfalque na cooperativa em que eu trabalhava e fui um dos últimos demitidos. Passei um perrengue. No entanto, minha ex-professora de literatura, que também foi reitora da minha primeira universidade, era, naquela ocasião, Secretária de Estado de Educação. Recorri a ela, consegui um cargo e meses depois fui transferido para o Teatro Guaíra, como assistente técnico. Cuidava dos três palcos, dos técnicos todos. E foi assim que conheci os grandes diretores do país, que iam com montagens brilhantes ao Guaíra. Foi assim, por exemplo, que conheci Paulo Autran, de quem me tornei grande amigo, até sua morte.

 

Dos primeiros trabalhos, alguma montagem que mereça lembrança especial?

O Eucalipto e os Porcos, do argentino Hugo Mengarelli, que ele também dirigiu. O Hugo lecionava Interpretação e diante das minhas notas e destaque, oficializou o convite à direção para eu poder atuar num elenco profissional, antes de eu me formar, valendo como estágio. Foi ele quem me ensinou Stanislavski e Freud. A peça foi um estrondo. Ganhamos o Prêmio Governador do PR e uma viagem ao Rio de Janeiro, para uma temporada no Teatro Glauce Rocha.

 

Pode nos contar um pouco da experiência de trabalhar com Bob Wilson e Pina Bausch?

Assumi a direção técnica do Theatro Municipal de São Paulo e depois passei pela direção de cena e artística, a convite de Emilio Kalil. Tinha me formado recentemente, estava com 22 anos. Quando disse sim ao cargo e olhei nas coxias os contêineres de Bob Wilson, pensei: “Meu Deus! E agora?” Eu mal falava inglês. A peça era When We Dead Awaken, de H. Ibsen, com o American Repertory Theatre, que teve adaptação, cenários e direção de Robert Wilson. Foi ali que a estética me fisgou. Não a específica e quase única dele, mas a busca por uma qualificação cenográfica que uniria em meus projetos, a partir dali, envolvendo cenário, luz e figurino. Hoje, é raro haver um estudo em conjunto. Os profissionais convidados quase sempre apresentam um croqui e nunca mais voltam para ver um ensaio. Às vezes, só reaparecem no ensaio geral, quase sem discussão com o diretor. Sequer leem o texto. Escutam sobre a temática da peça e dali tecem o que acreditam ser coerente com o que vai ser apresentado. Por isso, Bob Wilson tem a precisão que não temos. Assim como Pina Bausch. Quando acompanhava bailarinos com os pés sangrando nas coxias, de alguns dos quais me tornei amigo e via a certeira e também precisa marca ou gesto, percebia que tudo era estudo. Tudo era repetição. E dedicação, acima de tudo. Mas nada daquilo me fez deslumbrado, no sentido vazio do termo. Claro, eram dois ícones, dois gigantes das artes. Eu mantinha os pés no chão. Lá, eu era um mero aprendiz.

 

Como o ator cedeu lugar ao diretor e produtor, com relevantes trabalhos em vários cantos do país?

Foi natural. A minha formação prática no teatro foi, sem dúvida, mais eficaz que a teórica. Morava praticamente dentro do Teatro Guaíra. Via a feitura das coisas, a partir do zero. Da madeira a ser comprada, até o cenário propriamente construído. E fui me especializando nas áreas todas, que domino e adoro. Graças a isso, consegui viver de teatro. Consegui entender e dominar, de certa forma, o mercado, para poder sonhar, criar, produzir e montar o que penso ser importante naquele momento. Como o é hoje, com O Homem que Queria Ser Livro, num período de ditadura velada, onde as artes, cada vez mais, estão perdendo valor por um imediatismo vazio. A leitura tem deixado de ser veículo de entendimento do mundo, dos pais para os filhos e isso, infelizmente, gera o caos atual em que vivemos. Como mencionei, minha mãe me ensinou muito de produção e o gosto em batalhar por conquistas positivas, que elevem o outro. Conquistas que tirem as pessoas do lugar confortável ou desconfortável.

Como surgiu a ideia de montar O Homem que Queria Ser Livro, seu primeiro monólogo, marcando a volta de Flávio de Souza aos palcos?

O título veio de repente. Eu estava de moto, tinha acabado de sair de três produções, uma como ator, em A Falecida, de Nelson Rodrigues; outra, como diretor, em O Orgulho da Rua Parnell, de Sebastian Barry; e a terceira, como produtor de Paulo Betti, em Autobiografia Autorizada. Precisava de algo que me fizesse, como quando era criança, pular os morros, avistar possibilidades e, então, convidei Flavio de Souza. Pensei nele pela singeleza e malemolência nas palavras. Nós nos encontramos algumas vezes e ele foi tecendo um roteiro com subtítulo e eu enxertando com frases, pensamentos, sempre com o apoio e o aval dele. Deu no que deu: é um texto denso, altamente poético, no qual ele conseguiu extrapolar a dor de um luto, ressaltando a importância do livro na vida de uma pessoa. É a junção de literatura com teatro, num exercício prazeroso, gostoso, que, acredito, seja também para quem o vê. Quero fazê-lo em escolas públicas, particulares, associações. Quero sumir no mundo com essa peça.

Há algo de biográfico em O Homem que Queria Ser Livro? Será o conhecimento acumulado nos livros a melhor saída para compreensão das mazelas da humanidade?

Há muito de biográfico. Inclusive, muitas partes são escritos meus. Juntos, eu, Flávio e o diretor Rubens Rusche, não deixamos, nunca, a pedido meu, que o texto fosse uma ode a mim mesmo, uma espécie de lavação de roupa da alma. Eu nunca quis isso. Ele resultou numa universalidade, justamente porque tem a dramaturgia, os poetas alinhavando fatos reais e que são comuns na vida de qualquer pessoa. Por isso, acredito piamente que os livros, sem dúvida, são o maior alicerce de um ser humano. Num ensaio, no intervalo, me deparei com um pai contando uma história a um filhinho de mais ou menos quatro aninhos, no subsolo da livraria em que está o teatro, onde fica a sessão infantil. Falei da peça e o elogiei. A mãe veio feliz e me disse: “Basta isso, ensinar a entender e gostar dos livros, para que a vida seja boa e bela, o resto é bobagem”. Quase chorei.

Encenar um texto com viés filosófico, em tempos de tão rasas reflexões, é certamente um desafio imenso. Como foi possível viabilizar a montagem de O Homem que Queria Ser Livro, com características distantes do teatro comercial?

Então, costumo dizer que sou um homem adaptável, pois frequento muitas comunidades de vibes e estilos diferentes e nesse tempo de produtor, ator e diretor, fui criando parceiros e os mantendo comigo. Tentei inúmeras empresas para patrocínio, incluindo editoras. Ninguém se interessou e, por incrível que pareça, meu apoiador financeiro é uma empresa de investimentos(rs), a Easynvest. Mas, com o dom de criador nas funções, consigo realizar com objetividade. Por exemplo, o escudo e a lança do Dom Quixote que uso, fui eu quem fiz. Assim como o envelhecimento da escrivaninha, a criação da capa original do livro do Fahrenheit e por aí vai, até o patrocínio.

Embora seja um ator eminentemente de teatro, como foram as incursões na televisão e no cinema?

No cinema, quase nada. Não entendo a razão e também confesso que nunca fui persistente como sou com o teatro, de ir atrás, falar com diretores, buscar roteiros. Na televisão, tudo que fiz foi por convite. Lembro que em minha primeira vez no Rio, já como fui à Globo fazer um teste. Passei, mas teria que permanecer no Rio por três meses, na Oficina de Atores da Globo. Preferi voltar e continuar no Teatro Guaíra.

As leis de incentivo ao teatro têm cumprido seu papel?

As leis, acho que sim. Quem não cumpre o papel são os que as fiscalizam. Não concordo com um serviço protecionista, sem muita avaliação e/ou fiscalização pós-produção, mas, principalmente, na aprovação. A Rouanet, por exemplo, permitiu que oportunistas vivessem dela. Muitas vezes sequer sabem o nome do projeto montado, querem o percentual permitido e ainda ganham por fora. Por isso, quanto maior a verba aprovada, maior o jabá. Tanto para o marketing, que dá o dindim, quanto para quem conseguiu tal feito. O Fomento, por exemplo, muitas vezes faz com que a verba ganha acabe e o público nem soube da peça, sem condições de atender a um público maior. Produzir sem esses mecanismos é a verdadeira produção.

 

Darson Ribeiro: o teatro e sua universalidade.

 

 

 

*Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo, professor, ator e jornalista.

 

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