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AS CARTAS DE FERNANDO FITAS

POSTADO EM 11 MAR 2018 por: Raquel Naveira AS CARTAS DE FERNANDO FITAS
 
 
 
 
 
 
 
 
 
(*) Ely Vieitez Lisboa
 
 
Fernando Fitas é, sem dúvida, um dos maiores poetas portugueses atuais. Seu livro mais recente, “Escrevo um Verso na Água” é a obra mais significativa dos vários livros seus, muitos premiados e quase todos esgotados.
     Esta sua obra de 2017 traz na segunda orelha, trechos sobre o livro, comentários de escritores famosos, entre os quais tive a honra de ser citada. Afirmo ali algo que, após nova leitura cuidadosa do livro, sinto ser pura verdade facilmente comprovada: “Grande poeta, com um dos mais ricos vocabulários que já li. As imagens, as metáforas nos trazem um lirismo bem português. Sou tomada por um sentimento de surpresa contínua, de ter lido algo original, profundo, complexo, jamais lido antes”.
     Tudo no novo livro de Fernando Fitas é original. O Prefácio, o Introito, o Epílogo são poemas, assim como os trinta e um textos, que ele intitula de Cartas. A escolha pelo gênero epistolar é interessante, porque em quase todas, o Poeta dialoga com o destinatário.
     Nas páginas 7 à 14, vem a Apresentação, fortuna crítica da autoria de Manuel Ambrósio Sánchez Sánchez, da Universidade de Salamanca, texto precioso que aborda características importantes do livro. Na Apresentação, espécie de Prólogo inicial, o crítico afirma: “Encontramos assim três tempos e três espaços no texto: os da tragédia que sofrem agora os imigrantes, os do tempo também actual do poeta e os do passado deste, que são também o tempo e o espaço pretéritos que aqueles perderam”. Na realidade, o livro é um único grande poema, que mescla a tragédia universal à do poeta; é notável o enfoque universal, mesclado ao subjetivo.
     Só um autor genial conseguiria, como Fernando Fitas, unir uma tragédia universal que assombra o mundo moderno, à sua trajetória vital e literária, relembrando a figura da casa familiar, com o seu umbral, as paredes e seu teto, em uma lírica comunhão entre o homem e o meio, árvores e costumes antigos.
     Ainda na Apresentação enfatiza-se algo importante: o livro de FF é de uma extraordinária musicalidade, com um ritmo que lembra o movimento das ondas do mar, do vento que agita as folhas das árvores ou as asas das aves.
     Comentar toda a riqueza do livro é algo impossível: fica-se diante de um tesouro infindo e tudo que se diz parece pobre: as metáforas belíssimas e inusitadas, os arrojos linguísticos, as licenças gramaticais, como no primeiro verso da sexta carta: “pudesse eu sossegar as manhãs que chovem no teu rosto” (personificação e ruptura da impessoalidade do verbo chover). Aliás, Fitas é um exímio conhecedor da língua portuguesa, com o uso de muitas figuras de linguagem, sempre de forma surpreendente. Ele explora com perfeição as sensações sensoriais, em sinestesias arrojadas.
     No poema “pausa” (entre a 15ª e 16ª carta) o final é belíssimo, com uma contraditória metáfora (ou personificação?) e o reforço da impotência do amor, simbolizado pela fragilidade do “coração” (sinédoque), pois este grande sentimento não pode mais que o “subtil sopro dessa flor”. Aliás, note-se também que a primeira estrofe da 16ª carta é uma personificação da Natureza. A última estrofe realça a incapacidade humana da posse dos grandes sentimentos e sua derrota, na sua cegueira e pequenez.
     Os dois últimos versos da 17ª carta realçam a incapacidade de compreender o amor, a vida, assim como a 18ª carta caracteriza-se pelo tom elegíaco, diante de um perdido amor. A 20ª é um cântico à Amada, quando ele confessa sua impotência. A 22ª carta é toda uma comparação magica da feitura de um poema com a construção de uma casa. Notável
sequência de metáforas ricas e ousadas. Magistral!
     Na 24ª carta o poeta apresenta, de novo, a comparação do poema com uma casa, algo muito original. Toda a 25ª carta é um poético uso da figura da personificação. A 27ª canta a urgência dos que não compreendem a poesia. Na segunda estrofe, a ousada metáfora nos dois últimos versos: “sento-me nas asas de um pardal / aturdido de sonhos e espantos, pag.58”; enfatize-se ainda na primeira estrofe o emprego da rima rica (derramado / telhado – verbo e substantivo).
     A 30ª carta é um Cântico à Natureza, mesclando seus elementos à essência das palavras e à feitura do poema. Na última carta, o nome (aparentemente) fictício, a Glonelândia é repetido quatro vezes. Glonelândia ou Groelândia, sinônimo de “nossa terra”, ou “terra verde”, a maior ilha do mundo, terra do sonho, uma das mais selvagens, com a aurora boreal enfeitando as noites de inverno.
     Os versos finais do Epílogo são um convite para comer e beber a magia dos seus versos, onde há vida. O último verso é um cântico ao universalismo e ao poder dos poemas. E o poeta Maior, ignorando nosso desamparo diante de seu mundo tão rico, lança-nos ainda um repto, mesmo que “se a primavera não passar de um equívoco, /– absurdo e inútil como um sopro na boca –, há na polpa dos dedos sonhos que nidificam / na fímbria dos dizeres que precedem o verso”.
     Após a leitura e releitura do magnífico livro “Escrevo um verso na água”, de Fernando Fitas, o grande Poeta segue seu caminho com sua obra que é um luzeiro diante da nossa insignificante cegueira.
 
(*)Ely Vieitez Lisboa é escritora, crítica literária, articulista de vários jornais, 
 
poetisa, 14 livros publicados, autora do romance epistolar Cartas a Cassandra.
 
E-mail: elyvieitez@uol.com.br
 
 
 
 

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