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Alaor Barbosa: a prosa vibrante de Goiás

POSTADO EM 06 JAN 2018 por: Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos Alaor Barbosa: a prosa vibrante de Goiás
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos
 
Goiano de Morrinhos, o contista, romancista, ensaísta, jornalista e advogado Alaor Barbosa começou a escrever aos 13 anos. Aos 16 tornou-se colaborador do Suplemento Literário do Jornal do Brasil. Formado em Direito, é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de Brasília (UnB). Dentre sua vasta bibliografia, destacam-se A morte de Cornélio Tabajara (1998), Memórias do nego-dado Bertolino d’Abadia, Picumãs, Os rios da coragem, A epopeia brasileira ou para ler Guimarães Rosa, O romance regionalista brasileiro e O ficcionista Monteiro Lobato. 
 
Quando a descoberta da leitura? Que autores considera essenciais em sua formação como leitor?
 
Comecei a ler livros de literatura aos oito anos de idade: um livro intitulado Histórias de infância, que, infelizmente, desapareceu e de cujo autor esqueci o nome. Mas me lembro do nome da personagem de uma das histórias: Rosa Bonheur. A ele se juntam os livros Os grandes benfeitores da humanidade, de Francisco Acquarone, que eu li aos dez anos, A volta ao mundo por dois garotos, de Henry de la Vaux e Arnald Galopin, atualizado por Francisco Acquarone, que eu li aos treze, e A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, também lido aos meus treze anos de idade.   
 
Como ingressou no jornalismo, ainda adolescente?
 
Comecei a escrever em jornal, aos treze anos de idade, em um semanário de Morrinhos, denominado O Liberal. Tendo vindo estudar em Goiânia, um mês e pouco antes de completar quinze anos, comecei logo a trabalhar em um jornal diário, redigindotrês seções assinadas, até compreender que não devia trabalhar de graça. Mesmo assim, entrei em seguida a colaborar, sem remuneração, em outros jornais, com artigos e crônicas, principalmente nos semanários Tribuna do Povo, que durou pouco tempo, e Nova Capital, também efêmero. Me transferi para o Rio de Janeiro, em janeiro de 1956, ainda com quinze anos de idade. Aos dezessete anos, passei a escrever no suplemento literário de um jornal diário importante, que me pagava mais ou menos bem cada um dos textos meus nele publicados, e, sem remuneração, na Revista Goiana, da Associação Goiana, que existia no Rio havia muito tempo. Dos dezenove aos vinte e quatro anos, com a exceção de um período de nove meses em que, ainda acadêmico de direito, comecei a incursionar na advocacia em Morrinhos, minha atividade profissional predominante foi o jornalismo.   
 
 O que significou deixar Goiás, seu estado natal, nos anos 50, e partir para o Rio de Janeiro?
 
 Eu fui de Goiás pro Rio de Janeiro um tanto antes da hora adequada: no início da adolescência. Uma temeridade, enfrentar o Rio em tal circunstância. Mas eu consegui aproveitar do Rio o que lá havia de bom e acessível a um jovem de dezesseis anos,desprovido de suficientes recursos financeiros. Dando um balanço, posso dizer que, no Rio, me relacionei com o que havia de melhor no mundo estudantil, literário e artístico, trabalhei em jornais importantes que me puseram em contato e convívio com pessoas igualmente importantes, fiz o curso clássico e os três primeiros anos do curso de direito. Publiquei um livro e escrevi outro, que consegui editar tão logo retornei para Goiás.  
 
Quais lembranças são mais marcantes do período pós-golpe de 64 e das perseguições políticas que sofreu?
 
São muitas e fortes. Mas o tempo e a vida cotidiana se incumbiram de lhes reduzir a força da presença em meu espírito.   
 
O exercício da advocacia veio por inclinação natural ou pela impossibilidade de sobreviver da literatura e do jornalismo?
 
A advocacia era a profissão que desde a adolescência em Morrinhos eu aspirava a exercer.  Comecei a exercê-la ainda acadêmico de direito e foi ela que me permitiu reconstruir minha vida em bases mais sólidas.  
 
Considera a memória, que permeia grande parte de sua produção ficcional, sua maior matéria-prima como escritor?
 
O tempo e o trabalho me fizeram compreender, aos poucos, que, para se fazer boa literatura, a invenção – a imaginação – é o instrumento preponderante. Mas é evidente que a memória exerce sempre um papel fundamental e essencial no trabalho do escritor.   
 
Os prêmios que recebeu têm papel determinante em sua trajetória como escritor?
Não.
 
No campo ensaístico, suas reflexões mais densas são em torno da obra de Monteiro Lobato e Guimarães Rosa. Qual o papel de ambos na moderna literatura brasileira? Pode nos contar como foi o encontro pessoal que teve com o autor mineiro?
 
Desde os meus treze anos de idade que adquiri o hábito de escrever sobre os livros que lia. Meu intuito principal era o de conhecer o livro lido e aprender o mais que pudesse a respeito da ação de escrever.      
 
Do romance de estreia, O exílio e a glória (1980), passando por A morte de Cornélio Tabajara (1998), Memórias do nego-dado Bertolino d’Abadia (1999), Uma lenda (2004), ao mais recente, A solidão e a coragem de cada um (2015), enxerga algum amadurecimento na técnica narrativa?
 
Foi com o romance A morte de Cornélio Tabajara, escrito em 1994, já depois dos cinquenta anos de idade, que eu verifiquei, afinal, que era capaz de escrever romance. Projeto antigo, eu o escrevi em poucas semanas e ele me saiu perfeitamente maduro. Ganhei, então, muita autoconfiança e sensível destreza, que muito me ajudaram a converter em realidade as narrativas que concebo e projeto.Os romances que eu escrevi depois possuem, cada qual, uma técnica de narração, o que é um fato natural.
 
Após publicar Saci e Romãozinho, qual motivo o levou a desistir de escrever para o público infantil?
 
Não desisti de escrever para crianças. Tenho um livro infantil inédito.
 
No conjunto de sua produção literária, o conto ocupa posição privilegiada. O que define a boa narrativa curta?
 
No concerto da minha obra literária, o conto e o romance ocupam posições equipolentes. Os requisitos para que um conto seja literariamente bom são os mesmos dos demais gêneros: é preciso ter o que dizer e é indispensável saber fazer.
 
Desde os anos 60, você registra em diários suas experiências cotidianas. Continua a escrevê-los? Pretende trazê-los a lume?
 
Iniciei, em meados de 1961, um diário literário. Eu o escrevi, com alguma intermitência, até meados da década de 1990. Tenciono publicá-lo logo que tiver terminado de republicar meus contos e romances.
 
 
 
*Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre me Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.
 
 

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